Eleições aumentam abismo entre americanos urbanos e rurais

Eleições aumentam abismo entre americanos urbanos e rurais

11 nov. 2018
Nestas eleições estavam em jogo 435 assentos da Câmara dos Deputados, 35 cadeiras do Senado, 36 governos de Estados americanos, além de vários cargos locais, como prefeitos, juízes e xerifes
Foto: Kevin Hagen / AP A vitória democrata na Câmara dos Deputados resultou do deslocamento, da direita para o centro, de eleitores das áreas residenciais de classes média e alta na periferia das cidades. Pesou também a mobilização de mulheres, negros e latinos, que saíram da apatia e contribuíram para o comparecimento de 114 milhões, muito acima da média em eleições de meio de mandato. Essa apatia explicou, em grande medida, a eleição de Trump em 2016. Igualmente, a adesão dos chamados “subúrbios” às promessas de Trump, como a redução de impostos e dos preços dos convênios de saúde, também ajudou a eleger o presidente. A reforma tributária deu continuidade ao ciclo de crescimento e queda do desemprego (ambos na casa dos 4%), que já vinha ocorrendo no governo de Barack Obama. Por outro lado, a política de Trump de enfraquecer o sistema de saúde criado por Obama, por meio de cortes orçamentários e eliminação de incentivos tributários, encareceu os convênios. Portanto, há uma racionalidade clara nesse movimento do eleitorado de classe média: os democratas não reverterão os cortes nos impostos, mas trabalharão para reforçar o Obamacare. As bolsas de valores reagiram positivamente, porque os democratas apoiam a proposta de Trump de investir em infra-estrutura, não ameaçam a reforma tributária nem a desregulação e podem pôr um freio nas guerras comerciais desencadeadas pelo presidente. As mulheres acordaram um pouco tarde para o significado da eleição de Trump para questões que as afetam diretamente, como o direito ao aborto, no caso das liberais; ou, inversamente, da preservação da família, no caso de conservadoras, que ficaram chocadas com a separação dos filhos de imigrantes ilegais dos seus pais presos.  Eu acompanhei a marcha das mulheres em Washington, Filadélfia e Nova York, em 21 de janeiro do ano passado, um dia depois da posse de Trump. Como escrevi em reportagem para o caderno Aliás, senti um clima de contracultura, de resposta liberal à onda conservadora. Ali começou a mobilização das mulheres para se lançar ou apoiar candidatas, que resultou na eleição de 100 deputadas, 12 senadoras e 9 governadoras. Desse total, 103 são democratas e 18, republicanas. Cobri as eleições de 2016, e percebi o desalento dos eleitores negros frente a Hillary Clinton. A euforia causada pela eleição de Obama refluiu, com algumas expectativas não materializadas e com a candidatura de uma branca identificada com o establishment. Muitos não saíram para votar.  O chamado “voto latino” sempre foi tão diverso a ponto de esvaziar o significado prático da expressão. Há os cubanos republicanos, que odeiam os democratas por identificá-los com o “socialismo” do qual fugiram; há os latinos democratas, que rejeitam a hostilidade republicana com imigrantes e até contra Cuba; e há, sobretudo, os indiferentes. Nas coberturas das três últimas eleições presidenciais americanas, sempre identifiquei a figura do imigrante “arrivista”, que, no anseio de se tornar um americano, e depois de ter passado muitos sacrifícios para alcançar a cidadania, defendem linha dura contra os indocumentados. Eles identificam nos republicanos a realização do sonho americano de prosperidade fincada no individualismo. Aparentemente Trump foi longe demais em sua hostilidade, levando muitos latinos a votar pela primeira vez — contra ele. Tiveram melhor desempenho os democratas mais moderados e os republicanos mais radicais. Os democratas mais à esquerda e os republicanos mais ao centro, críticos de Trump, tiveram menos votos. Isso aponta para os democratas reocupando o centro e os republicanos continuando a caminhar para a direita. E o aprofundamento do abismo entre americanos urbanos e liberais, de um lado, e rurais e conservadores, de outro. Publicado no Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.