
Obama lembrou Mandela e condenou o nacionalismo, a corrupção e o preconceito racial
Estou voltando da África do Sul, onde acompanhei as celebrações do centenário de nascimento de Nelson Mandela. O legado desse líder extraordinário foi contrastado, nos discursos e debates, com o momento deprimente vivido na política, não só na África do Sul, ou no continente africano, mas em grande parte do mundo. Com exceção de alguns países – e eu citaria a França de Emmanuel Macron, a Alemanha de Angela Merkel, o Canadá de Justin Trudeau, a Colômbia de Juan Manuel Santos e a Argentina de Mauricio Macri, mais alguns poucos –, o mundo vive uma angustiante entressafra de líderes.
Crianças celebram o centésimo aniversário de Nelson Mandela | REUTERS/ Francis Mascarenhas
A própria África do Sul está convalescendo da terra arrasada ética, econômica e política deixada por Jacob Zuma, uma figura que será lembrada pela sua capacidade de fazer tudo errado, representante do que há de pior no populismo tribal e étnico, corrupto e clientelista.
Nesse cenário, discursou, no aniversário de Mandela, dia 17, o ex-presidente americano Barack Obama no estádio de críquete Wanderers, em Johannesburgo, para mais de 30 mil pessoas. Em uma aparição de imenso significado para o povo africano, o primeiro negro a presidir a nação mais rica e poderosa do mundo procurou extrair as lições desse momento trágico para a política, ao mesmo tempo em que levantava o moral de todos, apontando os desafios pela frente.
“Devemos enxergar na atual tendência de política reacionária que a luta por justiça nunca está verdadeiramente concluída”, disse Obama. “Então, temos de estar constantemente vigilantes e combater aqueles que tentam se elevar empurrando outros para baixo.”
No discurso de uma hora, o ex-presidente americano condenou a corrupção, o nacionalismo, a xenofobia e o preconceito racial. E tomou como modelo “Madiba”, nome do clã de Mandela, pelo qual ele é conhecido dos sul-africanos.
“Assumir nossa humanidade comum não significa que tenhamos de abandonar nossas identidades étnica, nacional e religiosa”, destacou Obama. “Madiba nunca deixou de ter orgulho de sua herança tribal, de ser negro e sul-africano. Mas ele acreditava, como eu acredito, que se pode ter orgulho de sua herança sem criticar os que têm uma herança diferente.”
