
JBS, UMA DAS EMPRESAS MAIS COMERCIALIZADAS DO PAÍS: O Brasil é um dos poucos países com os quais os EUA tem superávit comercial em vez dos números negativos/ Revista Exame
O protecionismo de Donald Trump e a saída britânica da União Europeia (UE) podem abrir novas oportunidades de inserção comercial para o Brasil e para o Mercosul. Desde que o Brasil aceite as implicações dessa inserção: para exportar, é preciso também importar; a liberalização do mercado de serviços, um dos entraves da negociação com a UE, é inerente à abertura do setor industrial; algumas empresas e segmentos morrerão e outros nascerão, tanto por causa das inovações tecnológicas quanto por causa do comércio.
São algumas das principais constatações em um debate, promovido nesta segunda-feira pela Fundação FHC, entre Gustavo Junqueira, sócio-diretor da empresa de assessoria financeira Brasilpar e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (2014 a 2017), e Thomaz Zanotto, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, assessor da CSN para Assuntos Internacionais e ex-diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT).
“Não há dúvidas de que para o Brasil se abrem oportunidades para tirar um atraso de dez a treze anos, durante os quais fechou apenas três acordos pequenos, com Israel, Autoridade Palestina e Egito”, admite Zanotto. “O novo Mercosul passa a ser mais interessante para a UE”, completa o especialista no setor industrial. O “novo” Mercosul é resultado da conjunção entre os presidentes Michel Temer e Mauricio Macri, da Argentina, mais favoráveis ao comércio do que seus antecessores de esquerda, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner.
Do lado europeu, Trump sepultou a Parceria Transatlântica para o Comércio e Investimento (TTIP), que vinha sendo negociada entre EUA e UE. “Agora os europeus se interessam vivamente por um acordo com o Mercosul”, aposta Zanotto. “Outra oportunidade é o México, que está no olho do furacão” do protecionismo de Trump, e com o qual o Mercosul já tem acordos no setor automobilístico.
À pergunta de Exame Hoje, sobre o potencial de uma maior aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico (México, Chile, Peru, e Colômbia), não só pelo possível descolamento dos mercados mexicano e americano, mas pelo sepultamento, também por Trump, da Parceria Transpacífico, Zanotto respondeu: “Com esses países apenas vai se aumentar o ritmo. O problema maior são tecnicalidades, como convergência regulatória e regras de origem. O Brasil já zerou as tarifas e os outros países vão zerar até 2018. Hoje o que mais bloqueia o comércio são medidas não-tarifárias, como as fito-sanitárias, em relação à carne, por exemplo, mas não há dúvida de que, para o Brasil , é uma oportunidade a mais”.
Zanotto observou que “as pessoas falam muito mal do Mercosul”, mas hoje o executivo de uma montadora de outro país, por exemplo, olha para o Brasil junto com a Argentina, que, somados, têm uma capacidade instalada para fabricar cinco milhões de veículos ao ano. “Não é troco de pão”, diz ele. “É um terço da capacidade americana. Chegamos a consumir quase quatro milhões de veículos (ao ano). Os EUA, depois que se recuperaram, consomem catorze milhões.” Ele considera que a parceria Mercosul-Aliança do Pacífico é “fruto de fácil colheita” para a manufatura brasileira. Mas o primeiro passo, para uma empresa que quer se internacionalizar e começar a exportar, é o Mercosul, por causa da proximidade geográfica e da semelhança de língua, além dos acordos alfandegários.
Junqueira salienta que o “passaporte está mais carimbado” no setor agrícola, que exporta para 130 países. Mas ressalva que boa parte dessas transações nasce do interesse dos outros países pelos produtos brasileiros, e não de uma ação proativa em busca dos mercados. “Precisamos exercitar isso para ocupar esse vácuo deixado pelos EUA.” Dois exemplos são o milho e as carnes processadas que os EUA exportam para o México, que poderiam ser substituídos pelos concorrentes brasileiros.
Mas o especialista ressalta que o Brasil “não deve buscar uma posição antagônica” com os EUA. “Temos de ser parceiros dos EUA, porque o que está em jogo, mais que comércio, é uma reorientação geopolítica”, adverte Junqueira, que integra os conselhos de administração da Construtora EZTEC, do Banco Pine, do Moinho Paulista e da COSAN Logística. “O Brasil vai ter que se posicionar entre os chineses e os americanos.”
Ele vê interesses convergentes por exemplo no que se refere ao etanol do milho americano e da cana brasileira. “Pensando de maneira estratégica, temos que abrir o mercado chinês para o etanol, e aí os dois países se beneficiam”, explica ele. “Se tivermos uma descontinuidade no programa de etanol americano, o preço do milho cai e temos um problema grave para os produtores daqui.”
Zanotto pensa a mesma coisa do lado da indústria. Ele observa que o maior parceiro comercial do Brasil no setor de manufaturados são os Estados Unidos. “Praticamente toda a troca de US$ 70 bilhões é de manufaturados”, diz ele. Além disso, o Brasil é um dos poucos países com os quais os EUA têm superávit comercial em vez dos números negativos que tanto exasperam Trump. Segundo o especialista, as empresas brasileiras empregam em torno de 180 mil pessoas nos EUA. A relação de investimentos entre os dois países, que no passado foi de sete dólares dos EUA no Brasil para um dólar do Brasil nos EUA, agora é de três para um. Ao redor de 70% dos componentes dos aviões da Embraer, por exemplo, são fabricados nos EUA, estima Zanotto. E parte desses aviões é fabricada lá.
De outro lado, as empresas americanas instaladas no Brasil estão aqui há muitos anos. A primeira fábrica de lâmpadas da General Electric, por exemplo, data de um século. Elas se instalaram aqui para atender o mercado brasileiro, e não em busca de mão-de-obra barata para vender para os EUA. Há imigrantes ilegais brasileiros nos EUA, mas seu número não chega perto do de cidadãos de outros países. “Não somos foco de narcotráfico e o terrorismo é zero”, acrescenta Zanotto. “Não me preocupo com os EUA. O Brasil não é um problema para eles.”
Quanto à UE, o jogo também está mudando. Zanotto citou uma metáfora usada por Roberto Jaguaribe, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e ex-embaixador em Londres e em Pequim: o mercado agrícola europeu é um copo cheio, enquanto o asiático é um balde vazio. Além da enorme resistência de alguns países europeus — França e Polônia à frente — de abrir esse mercado, eles também estão se tornando mais competitivos, graças a avanços tecnológicos. O açúcar de beterraba europeu, por exemplo, já não é tão mais caro que o de cana do Brasil.
Entretanto, explicou Junqueira, é importante que os produtos brasileiros tenham boa aceitação no mercado europeu, para serem valorizados pelos asiáticos, que têm os europeus como padrão de exigência de qualidade. Nas prateleiras europeias, diz o especialista, os produtos australianos ainda têm mais destaque que os brasileiros, menos valorizados.
“O europeu, na concorrência com o Brasil, coloca produto brasileiro como sendo fruto de desmatamento, de ataque a comunidades indígenas, o que não é verdade”, observa Junqueira. “Temos que fazer o contra-ataque.” Mas o desafio é mais do que a imagem: “Precisamos mudar a postura de apenas exportador, e passar a provedor de solução alimentar”. A ideia é chegar ao governo chinês, por exemplo, e perguntar quantas pessoas ele precisa alimentar e quanto dinheiro tem disponível para isso. “Fazemos a melhor conta dólar-proteína e fornecemos um cardápio, mas exigimos um contrato take or pay (com garantia de pagamento) de 20 anos. Assim podemos investir na melhoria de estradas e portos e na qualidade das fábricas”, explica o especialista. Ele se preocupa com o risco de o Brasil ficar tão dependente da China quanto o México ficou dos EUA. Daí a proposta de contratos que dêem garantias do investimento.
No setor industrial, Zanotto também acha necessária uma mudança de mentalidade. “Uma calça da Zara é 20% calça e 80% serviço de propaganda, aluguel, manutenção da loja, logística”, exemplifica ele. “Trump percebeu isso e os ingleses também, o que é uma razão para o Brexit. Na hora em que indústria migrou toda para a China, os despachantes, a logística, os seguros, o financiamento, os serviços foram junto. Você não pode estar com toda a sua indústria em Shenzhen e a sede do HSBC em Londres. Quando o HSBC quer ir para Hong Kong ,cai o mundo porque eles percebem que entregaram muito mais que a indústria.”
O maior concorrente do Brasil, na verdade, são os nós existentes aqui mesmo, concordam os dois especialistas: variações cambiais muito fortes, custos trabalhistas, burocracia e juros altos. E ainda há resistências culturais, como não querer importar nem aceitar estrangeiros, seja na forma de profissionais ou de investidores.
Junqueira alerta que “não existe exportar sem importar”. Ele conta que o Peru quis exportar café para o Brasil em troca da nossa exportação de carne de porco para lá. “É uma quantidade ínfima de café e fica uma discussão como se estivéssemos discutindo a bomba atômica”, diz ele. “Nós brasileiros temos que entender que vamos ter que abrir e mudar nosso jeito de trabalhar para nos integrarmos de maneira ágil no mercado, que teremos que buscar e não só ser comprados, teremos que deixar empresas quebrarem para que novas empresas possam nascer, seja em que setor for, e isso é muito complicado do ponto de vista político no Brasil.”
Zanotto lembra que, em 2009 e 2010, no boom das obras de infra-estrutura no Brasil, faltavam engenheiros aqui, e havia profissionais de excelente qualidade desocupados na Itália, Espanha e Portugal. Entretanto, as corporações não permitem a vinda de estrangeiros (o programa Mais Médicos foi uma exceção, e provocou enorme choradeira dos sindicatos e conselhos da classe).
Outro exemplo desse atraso, diz Junqueira, é a atual polêmica sobre a mudança na lei de propriedade de terra, para permitir a entrada de estrangeiros. “Nossa discussão está focada na propriedade e não no uso da terra”, observa o especialista. “O Brasil precisa de capital intensivo para fazer toda essa terra se movimentar, para atingir esse potencial, ocupar um vácuo deixado pelos EUA, atrair investimentos americanos, fazer parcerias com outros países, e no fundo estamos discutindo o mesmo problema que no pré-sal: quisemos ficar com tudo, e no final das contas o pré-sal ficou debaixo do mar. A riqueza não veio.”
O cientista político Sérgio Fausto, diretor da Fundação FHC, que mediou o debate, resumiu a situação: “O jogo mudou e estamos com o mesmo time e esquema tático, que não era adequado nem para o jogo anterior. Estamos enfrentando o século 21 com cabeça do século 19”.
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