
Países como Coreia do Norte investem como nunca para hackear as democracias. Mas os brasileiros, incluindo seu presidente, continuam na era da inocência
Dados: em geral, pessoas informam seus dados sem se darem conta de que estão dando de graça algo que vale ouro no mercado
A divulgação do número de celular do presidente Michel Temer, na segunda-feira, e a revelação de que ele ainda usa uma conta do Gmail ilustram o desleixo dos brasileiros com a proteção de seus dados pessoais.
O país continua na inocência, depois que o gmail da ex-presidente Dilma Rousseff já foi bisbilhotado pelo serviço secreto americano, que o escândalo pelo uso de uma conta pessoal de email contribuiu para a derrota da candidata democrata Hillary Clinton, que a Rússia usou as redes sociais para se intrometer nas eleições americanas, que a China e a Coreia do Norte empregam legiões de hackers para invadir bancos de dados, desviar dinheiro e fazer pressão política.
O aparelho de celular do ex-ministro da Secretaria de Governo da Presidência Geddel Vieira Lima, apreendido pela Polícia Federal, continha o número de celular e o endereço de email pessoal de Temer. As informações, incluindo centenas de outros documentos, foram entregues à Câmara dos Deputados, que as tornou públicas.
Um repórter do jornal O Globo ligou para o número e Temer atendeu. Três dias depois, no mesmo telefone, Temer voltou a atender uma chamada. E ainda confirmou que continua usando o mesmo gmail de quando era vice-presidente, justificando no entanto que as mensagens são recebidas por sua secretária. E afirmou “pode ligar de novo, viu”.
“As pessoas se colocam em vulnerabilidade porque não existe uma consciência da proteção dos dados pessoais”, constata Marco Konopacki, coordenador de projetos do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.
“A população do Brasil é a que menos se preocupa com proteção de dados. Dá o número do CPF ou qualquer informação a qualquer um a toda hora. Clica em links de emails sem checar a fonte. Coloca-se em risco por conta de falta de cuidado.”
No Brasil, até quando se vai pagar uma simples compra em uma loja, o caixa pede os números dos documentos pessoais, endereço, telefone e email, para preencher um “cadastro”.
Em geral, as pessoas informam tudo isso, sem se darem conta de que estão dando de graça algo que vale ouro no mercado: a associação de hábitos de consumo, renda e estilo de vida com a forma de localizar o consumidor.
É tudo de que as empresas precisam para traçar suas estratégias de vendas direcionadas ao consumidor e, no jargão do marketing, oferecer algo que seja “relevante” para ele, explica Konopacki. Além de entregar isso de graça, o consumidor está abrindo o flanco para golpes de criminosos, que se aproveitam também da impulsividade com que as pessoas clicam em qualquer link que lhes enviem.
Como parte da falta de cultura de proteção de dados, pessoas físicas, empresas privadas e entidades públicas não investem em segurança da informação.
Segundo Konopacki, esse tipo de investimento vai desde a atualização de sistemas operacionais, que vão incorporando novas proteções para novas ameaças, até a contratação de especialistas em segurança, passando por campanhas internas de conscientização. O uso de softwares piratas também não ajuda, porque eles não recebem as atualizações fornecidas pelo fabricante.
Em junho, os sistemas do Hospital do Câncer e da Santa Casa de Barretos saíram do ar por causa de um ataque global do ransomware (programa de resgate) Petya. O programa travava os computadores e cobrava 300 dólares na moeda virtual bitcoin para fornecer uma senha para desbloqueá-los. Cerca 2.000 computadores foram afetados em todo o mundo.
Ataque semelhante em maio, com o ransomware WannaCry, havia paralisado o atendimento do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. A Microsoft desenvolveu um sistema de proteção para o WannaCry. Mas muitas empresas e indivíduos não haviam atualizado ainda seus sistemas operacionais, tornando seus computadores vulneráveis.
Konopacki foi assessor de Novas Tecnologias e Participação na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça entre 2014 e 2016, período em que coordenou as consultas públicas para a elaboração do Marco Civil da Internet. O Marco instituiu princípios de proteção dos dados, como por exemplo a proibição da venda de cadastros. Entretanto, diz o especialista, faltam leis para regulamentar esses princípios. Como está, depende ainda da avaliação subjetiva dos juízes.
“Há um projeto de lei que cria regras para a gestão de dados pessoais, e o instituto monitora a tramitação”, diz Konopacki. “Mas ainda não passou no Congresso e não sabemos se vai passar tão cedo. Isso coloca o Brasil num atraso tremendo.” A Espanha, por exemplo, além de leis, tem uma agência de proteção de dados pessoais, que fiscaliza seu uso adequado. “Nenhum dado pessoal deve ser coletado além do necessário para o serviço específico”, explica o especialista.
Em 2013, Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança, dos EUA, revelou, entre muitas outras coisas, que o gmail de Dilma e também dados e trocas de mensagens na Petrobrás tinham sido grampeados. Konopacki lembra que, na “ressaca” desses vazamentos, formou-se uma comissão interministerial, com a missão de criar “canais robustos de comunicação segura, com criptografia, dentro do governo federal”.
Entre essas medidas estava o presidente — ou, na época, a presidente — usar telefone e email protegidos. Os sistemas criptografados, no entanto, são chatos e demorados de usar. Você não pega simplesmente o celular e liga, ou redige um email e manda. É preciso digitar uma série de senhas. “Há sempre um balanço entre segurança e liberdade”, observa o especialista.
Parece que a liberdade tem falado mais alto. Mas às vezes ela também fica ameaçada. Foi o caso da tentativa de alguns deputados de enfiar na reforma política a possibilidade de obrigar as plataformas de internet a tirar do ar uma informação considerada caluniosa por um político, mediante simples notificação.
“A intenção de combater informações falsas na internet era nobre, mas a forma foi desastrosa, porque é uma violação grave da liberdade de expressão”, avalia Konopacki. “Era um debate já superado pelo Marco Civil da Internet. Viraria uma guerra entre escritórios de advocacia. E a campanha seria morna, porque os eleitores não teriam a informação completa sobre os candidatos. Nem tudo o que desabona alguém é necessariamente calúnia.”
