
PUTIN NA ABERTURA DA COPA DAS CONFEDERAÇÕES: presidente pretende usar o evento como um exemplo do “sucesso” de sua administração/ Kai Pfaffenbach/ Reuters
A Copa das Confederações teve um pontapé inicial à altura das ambições de seu anfitrião. No novo estádio de 750 milhões de dólares de São Petersburgo, terra natal de Vladimir Putin, e na presença do presidente, a Rússia venceu a Nova Zelândia por 2 a 0, na abertura dos jogos, dia 17. O torneio é considerado um ensaio para a Copa do Mundo do ano que vem, e Putin havia cobrado um desempenho melhor da Rússia, que na Eurocopa do ano passado perdeu todas as partidas.
O destino dos russos mudou no segundo jogo, contra o campeão europeu Portugal, que derrotou os anfitriões no dia 21 com apenas um gol de Cristiano Ronaldo. A Rússia acabou eliminada depois de lutar valentemente com o México, que a venceu por 2 a 1 no dia 24.
Entretanto, o futebol é talvez o aspecto menos importante da Copa das Confederações, do ponto de vista de Putin. E fora de campo as coisas andaram conforme o figurino do ambicioso presidente russo, no poder há 18 anos, e provável candidato vitorioso à reeleição em 2018: sem terrorismo, sem violência de torcedores e com a maioria dos 12 estádios pronta ou perto disso.
O grande temor da Rússia, em sua Copa de 10,8 bilhões de dólares, é o que o vice-primeiro-ministro Vitaly Mutko chama de “cenário brasileiro”: atrasos nas obras e problemas de organização no início do torneio. Relatório da ONG de direitos humanos Human Rights Watch denunciou no ano passado 17 mortes nas obras, e trabalhadores — inclusive norte-coreanos — sob condições análogas às da escravidão. Mas esse tipo de coisa não chega a obscurecer o brilho da Rússia — pelo menos aos olhos dos próprios russos, que é o que importa para Putin.
O presidente persegue desde sua chegada ao poder em 2000 o objetivo de restaurar o orgulho nacional russo, elevando-o de volta aos auges alcançados na Rússia tzarista e na União Soviética. Esse sentimento está associado à sua estratégia de permanência no poder e à plutocracia que gravita ao seu redor, que concentra os negócios mais lucrativos, realiza os projetos mais ambiciosos e sustenta Putin à frente de seu “capitalismo de Estado”.
O exemplo mais recente dessa confluência entre poder político, contratos estatais e grandiosidade da Rússia está no projeto de mais de 3 bilhões de dólares de uma ponte de 19 km ligando o território continental russo à Península da Crimeia, tomada da Ucrânia em 2014.
O contrato foi entregue em janeiro de 2015 ao magnata da construção civil Arkady Rotenberg. Apelidado pela revista Forbes de “o rei das encomendas estatais”, Rotenberg, de 63 anos, entrou aos 12 para a mesma academia de judô que Putin, em São Petesburgo, e ambos são amigos desde então.
Rotenberg é o representante de uma nova geração de bilionários russos, associada à ascensão de Putin e à brusca guinada da economia da Rússia, do socialismo soviético para o capitalismo de Estado, passando por um breve namoro com o liberalismo.
O desmoronamento do império soviético, em 1991, abriu caminho para um experimento democrático, concomitante com um esboço de liberalismo econômico. O modelo de privatização dos conglomerados estatais, no entanto, com antigos gestores soviéticos convertidos em dirigentes empresariais leais aos homens fortes de turno, conduziu o país ao capitalismo de Estado.
Apesar de relativos afrouxamento monetário e abertura comercial, o controle sobre as atividades econômicas mais lucrativas continuou nas mãos de quem concentrava o poder político. Mesmo assim, surgiram empresários bem-sucedidos, com poder econômico suficiente para desafiar o establishment político.
Essa ambivalência durou menos de uma década. Vladimir Putin, ex-chefe da KGB em Dresden (Alemanha Oriental), chegou ao poder em 1999, como primeiro-ministro do presidente Boris Yelstin, que logo renunciou, em circunstâncias não totalmente esclarecidas, e lhe cedeu o seu lugar. Desde então, Putin tem se dedicado a eliminar toda forma de oposição: empresários que não o obedecem, políticos com potencial para ameaçá-lo, jornalistas investigativos, manifestantes que atingem alguma notoriedade.
Em seu livro “
Putin’s Kleptocracy: Who Owns Russia?” (“A Cleptocracia de Putin: Quem é dono da Rússia?”), a pesquisadora americana Karen Dawisha descreve como, depois do golpe liderado pela KGB em agosto de 1991, quase 4 bilhões de dólares de ativos controlados pelo Departamento de Administração de Propriedades do Partido Comunista foram distribuídos para centenas de bancos e empresas dirigidos por ex-burocratas soviéticos.
“Em breve, esses fundos, e as pessoas que os geriam, se tornariam a verdadeira fundação da economia da Rússia pós-soviética”, analisa Dawisha. Como diretor da KGB, Putin participou desse processo desde o início.
Em reportagem publicada no dia 29 de maio, a revista New Yorker conta uma história que mostra como Putin e seus aliados reorganizaram a economia russa em benefício próprio. Depois que o presidente Boris Yeltsin nomeou Putin seu sucessor, na virada de 1999 para 2000, o liberal Andrei Illarionov, membro da equipe econômica do governo, recebeu uma ordem do novo presidente de criar um monopólio estatal a partir de mais de cem fábricas de bebidas alcoólicas.
A nova empresa passaria a se chamar Rosspirtprom. O funcionário estranhou, porque ninguém a havia mencionado nas reuniões do conselho econômico do governo. Illarionov perguntou a outros assessores de Putin se tinham ouvido falar desse plano, mas ninguém tinha. “Ficou claro que havia outras pessoas, além de nosso conselho econômico, que estavam assessorando Putin, e que ele estava tomando decisões para beneficiá-las”, concluiu o economista. No caso da Rosspirtprom, essa pessoa era Rotenberg, apurou a revista. Ele havia sugerido que Sergey Zivenko, com o qual tivera negócios anos antes, assumisse a direção da nova estatal.
A Rosspirtprom acabaria controlando 30 por cento do mercado russo da vodca, tornando-se uma fonte de receita importante para o Estado antes do aumento do preço do barril de petróleo, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Por isso foi considerada um experimento bem-sucedido de capitalismo de Estado.
O enriquecimento é considerado um prêmio natural para os aliados que tocam projetos que trazem bons resultados como esse, como no caso de Rotenberg. “Muitas pessoas tentaram usar sua proximidade com Putin para fazer um monte de promessas que nunca cumpriram”, justificou Zivenko à revista. “Rotenberg, não. Ele usou sua confiança e entregou resultados tangíveis.”
Em 2001, antes do boom do petróleo, Putin colocou aliados próximos no lugar dos principais executivos da Gazprom, a grande empresa de energia russa. A estatal passou a funcionar como uma “empresa pessoal do presidente, com todas as decisões tomadas por seu gabinete”, descreveu Mikhail Krutikhin, da consultoria RusEnergy.
De novo, os irmãos Rotenberg saíram favorecidos. Em 2007, em vez de seguir um plano antigo de construir um ramal de 560 km para uma rede já existente no Ártico, a direção da empresa decidiu fazer um novo gasoduto, 800 km ao sul, ao custo de 44 bilhões de dólares — o triplo do preço normal.
“A única explicação é que foi uma chance para as empreiteiras ganharem muito dinheiro”, acredita Krutikhin. Os gasodutos construídos pela Gazprom na última década custaram de duas a três vezes mais que projetos equivalentes na Europa, mesmo no sul da Rússia, que são regiões de mais fácil acesso e clima mais temperado. Em 2013, por exemplo, o custo de um gasoduto construído pelas empresas de Rotenberg em Krasnodar — uma região quente e plana do Mar Negro — foi acrescido de 45%, sem que se desse uma explicação. Esse ramal deveria ligar-se a um tronco que atravessaria a Bulgária. Entretanto, mesmo depois que o governo russo suspendeu a construção do tronco, a obra do ramal continuou por mais um ano. De acordo com Mikhail Korchemkin, diretor da consultoria East European Gas Analysis, ficou claro que a Gazprom “trocou a maximização dos lucros dos acionistas pela dos empreiteiros”. Os projetos da estatal passaram a ter a função de “enriquecer bilionários com serviços superfaturados”.
Em contrapartida, aqueles que tentaram ficar de fora da rede organizada por Putin pagaram um preço alto. Foi o caso de Mikhail Khodorkovsky, dono da companhia de petróleo Yukos, preso em 2003 sob acusação de fraude. Em 2013, depois que o ex-vice-chanceler alemão Hans-Dietrich Genscher intercedeu a seu favor, Putin indultou Khodorkovsky, que se exilou na Suíça.
De acordo com o Departamento de Tesouro americano, as empresas de Arkady Rotenberg e de seu irmão Boris (ambos sob sanções dos EUA e da União Europeia) receberam contratos no valor de 7 bilhões de dólares relacionados com os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014. Já os serviços prestados à Gazprom somaram 2,5 bilhões de dólares.
Além dos Rotenberg, o círculo próximo de Putin é formado por Gennady Timchenko, fundador da Gunvor, uma das maiores companhias de comércio exterior de commodities do mundo, com uma fortuna avaliada pela Forbes em 14,4 bilhões de dólares. Timchenko detém 23,5% da Novatek, segunda maior produtora de gás da Rússia, que está sob sanções dos EUA por causa da anexação da Crimeia e do apoio do Kremlin aos separatistas russos no leste da Ucrânia.
Outro leal aliado de Putin é Igor Sechin, presidente da Rosneft, empresa de petróleo e gás também sob sanções americanas. Sechin foi vice-chefe de gabinete de Putin até 2008, quando o atual primeiro-ministro Dmitry Medvedev se tornou presidente. Putin havia esgotado legalmente suas possibilidades de reeleição como presidente, e trocou de cargos com Medvedev, tornando-se primeiro-ministro. Em 2012, voltou à presidência. A Rosneft também está sob sanções dos EUA e da UE.
As mesmas sanções recaem sobre Sergei Chemezov, diretor da estatal de alta tecnologia Rostec. Chemezov foi vizinho de Putin em Dresden e seu colega na KGB. Antes de assumir a Rostec, ele dirigiu a indústria de armas estatal Rosoboronexport.
Yuri Kovalchuk, um dos cem homens mais ricos da Rússia, detém 38% do Banco Rossiya e, de acordo com o Tesouro americano, administra as finanças de importantes autoridades russas, incluindo o próprio Putin. Chamado de “caixa” do presidente, ele também foi colocado sob sanções dos EUA e da UE. O segundo maior acionista do Rossiya, Nikolai Shamalov, que possui 10% do banco, também é um velho amigo de Putin, segundo o Tesouro americano.
E a lista se alastra por todos os setores lucrativos da economia russa. Como se vê, o futebol não é o principal passatempo de Putin. Mas é melhor os jogadores russos se aperfeiçoarem até a Copa do ano que vem. O presidente não está acostumado a perder.
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