A fantasia de um Brasil urbano

12 mai. 2002

Você já parou para dar uma espiada num bom atlas do Brasil, depois de adulto, livre do estresse dos exames de geografia?


Recentemente, folheei o melhor deles, o do IBGE, enquanto preparava uma reportagem a respeito das teses do professor José Eli da Veiga acerca do desenvolvimento rural. É uma experiência e tanto. Naquelas 260 páginas que mostram o País de todos os ângulos, a imensidão e a diversidade do Brasil começam a deixar de ser abstração ufanista, para sugerir à imaginação a concretude dos municípios, das vilas, dos cultivos, das pastagens, das fábricas e dos casarios que se estendem por uma vastidão sem fim.

As pesquisas desse professor de economia da USP e o livro que ele está lançando agora, uma coletânea de 60 artigos publicados no Estado, são isso: um convite para olhar para o Brasil real, que desafia conceitos simplistas e se impõe com sua fantástica riqueza de possibilidades.

O título do livro, Cidades Imaginárias, é uma denúncia contra um desses conceitos, a premissa falsa que baliza, cotidianamente, impressões, argumentos, teses e políticas públicas: a de que mais de 80% da população brasileira é urbana.

Numa cruzada quase solitária, José Eli da Veiga, secretário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável, tem demonstrado, em seus artigos e palestras, os efeitos distorcivos da conversão das sedes dos municípios e vilas em sinônimo de "cidades", por um infeliz decreto da Era Vargas, que se mantém em vigor. E que o IBGE, por exemplo, é obrigado a obedecer.

À primeira vista, pode parecer uma inofensiva idiossincrasia semântica ou uma tecnicalidade. Não é. Quem quer que precise entender fenômenos sociais, econômicos e políticos, ou traçar estratégias, sejam elas comerciais, públicas ou militares, precisa saber quantos de nós levam uma vida e têm um trabalho de tipo urbano e de tipo rural, e quantos são "rurbanos", já que essas fronteiras são cada vez mais turvas. E o que significa cada uma dessas coisas.

A abordagem de José Eli, ele próprio e seus pesquisadores empenhados em interessantes pesquisas de campo em todo o País, enriquece a discussão teórica com casos intrigantes de municípios e microrregiões, conjugados com um levantamento de dados exaustivo, num país em que o simples esforço de reunir informações estatísticas já é heróico.

Quer um exemplo? Feliz, cidade a 100 quilômetros de Porto Alegre, que faz jus ao nome com seu pleno emprego e sua posição de uma das primeiras colocadas no índice de desenvolvimento humano no Brasil. O fechamento das fábricas da Grendene e da Antártica no município não acabaram com essa felicidade. Muitos dos dispensados investiram suas indenizações nos hortifrutigranjeiros, centro dinâmico de Feliz. Na vizinha Alto Feliz, os ateliês de malharia e de costura de sapatos para as fábricas do Vale dos Sinos absorvem a mão-de-obra.

A chave do desenvolvimento dessa e de muitas outras regiões é a simbiose de atividades tipicamente rurais e urbanas. Com ela, há uma mescla virtuosa de qualidade de vida, custos mais baixos, complementaridade de atividades econômicas, demanda de mão-de-obra intensiva e de serviços, renda, arrecadação, etc.

Noutros casos, é a proatividade de uma prefeitura, em conseguir um ônibus para transportar as crianças para a escola ou qualquer outra facilidade que torna o município um centro de atração de moradores em busca de melhores condições de vida, ou fixa os que já estão lá, detendo ou invertendo o êxodo.

Saber dessas coisas é valioso quando se vai discutir como destinar recursos públicos, de quem e sobre o que cobrar tributos, e tantos outros instrumentos de política para não atrapalhar o que está dando certo espontaneamente e criar condições para que as coisas melhorem noutros lugares.

Para isso, no entanto, é preciso focar a visão nas especificidades de cada lugar e ver como elas se encaixam no conjunto. Essa tem sido a tarefa singular de José Eli, e o que esse livro mostra é quanto ela pode ser instigante. A propósito: ele calcula que o Brasil seja 57% "inequivocamente" urbano.