
O que fazer com a Venezuela tem sido o maior dilema da política externa brasileira
O que fazer com a Venezuela tem sido o maior dilema da política externa brasileira desde que o presidente Michel Temer assumiu o cargo interinamente, em maio do ano passado. A partir da votação do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados, o governo brasileiro tem sido implacavelmente hostilizado pela verborragia do presidente Nicolás Maduro e de sua então chanceler, Delcy Rodríguez, que deixou o cargo recentemente para se candidatar à Assembleia Constituinte.
Quando da votação na Câmara, Maduro chamou de volta seu embaixador em Brasília, Alberto Castellar, que depois acabou retornando. Com a destituição definitiva de Dilma, em 31 de agosto, Maduro retirou Castellar de vez, deixando a representação sem embaixador até hoje. Seguindo a regra da reciprocidade, o Brasil também chamou de volta seu embaixador em Caracas, Ruy Pereira. Paralelamente, o Brasil liderou a decisão de suspensão da Venezuela do Mercosul, por não atender aos princípios democráticos e comerciais do bloco.
"É intolerável que nós tenhamos no continente sul-americano uma ditadura", escreveu Aloysio Nunes no Facebook Foto: André Dusek | Estadão
"É intolerável que nós tenhamos no continente sul-americano uma ditadura", escreveu Aloysio Nunes no Facebook Foto: André Dusek | Estadão
Como acontece com outras brigas compradas pelo regime, o ódio declarado por Temer foi assimilado por militantes e até pessoas comuns que apoiam o governo de Maduro. Ao saber que eu era do Brasil, uma funcionária do Ministério da Indústria de Base, que ademais é beneficiária de dois programas que lhe rendem um salário mínimo de US$ 12 cada, e mais um apartamento num conjunto habitacional, atacou Temer: “Esse desgraçado esquálido”, disse ela, usando o mesmo adjetivo empregado contra a oposição. “Tem que ser preso também, como (o líder oposicionista Henrique) Capriles. Dilma, sim, era revolucionária.”
Entretanto, um mês depois de Maduro assinar o decreto convocando a eleição da Assembleia Constituinte, considerada espúria pela oposição venezuelana e por boa parte da comunidade internacional, incluindo o próprio Brasil, Pereira reassumiu seu posto em Caracas no dia 5 de julho. Foi uma medida unilateral, já que a embaixada venezuelana em Brasília continua acéfala.
Nomeado por Dilma, Pereira não se entrincheirou no sexto andar do Centro Gerencial Moedano, sede da embaixada brasileira. Ao contrário. Desde que chegou, reuniu-se ao menos três vezes com o vice-chanceler venezuelano para América Latina, Alexander Yánez. E está esperando a oportunidade de se encontrar com o novo chanceler, Jorge Arreaza, nomeado na quarta-feira por Maduro.
